Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é um boomer shooter brasileiro que abraça o caos

Existem jogos que tentam impressionar pelo realismo, outros apostam em grandes histórias e há aqueles que simplesmente decidem transformar qualquer limite em uma piada. Aviãozinho do Tráfico Pré 4: Sobraram Demônios do Portal pro Inferno na Favela que Abri e Agora Tenho que Salvar os Mamadas do Ronaldo pertence definitivamente à terceira categoria.

Desenvolvido por Joeveno, o novo capítulo da série brasileira utiliza a id Tech 2, a mesma tecnologia que ajudou a estabelecer a identidade de Quake, para construir um boomer shooter rápido, exagerado e completamente comprometido com a cultura brasileira.

Depois de algumas horas explorando seus cenários, enfrentando inimigos e experimentando seu arsenal, fica claro que o objetivo aqui não é competir visualmente com os grandes FPS atuais. Pelo contrário: o jogo encontra sua força justamente em assumir suas limitações, abraçar a estética trash e transformar referências brasileiras em parte fundamental da experiência.

Um boomer shooter com personalidade própria

A primeira coisa que chama atenção em Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é que ele não tenta esconder suas inspirações.

A estrutura remete diretamente aos FPS clássicos dos anos 1990. Os mapas são construídos para incentivar movimentação constante, os combates colocam grupos de inimigos contra o jogador e a velocidade é uma parte fundamental da experiência.

No entanto, a equipe não simplesmente reproduziu Quake.

Em vez disso, Joeveno utiliza a estrutura clássica do boomer shooter como uma espécie de playground para colocar referências brasileiras em praticamente todos os cantos.

Essa combinação funciona surpreendentemente bem.

A própria Gamerview destacou a sensação de nostalgia proporcionada pelo jogo, especialmente por sua relação com os antigos mapas e mods brasileiros que ficaram populares na época das lan houses.

É justamente essa identidade que faz Aviãozinho do Tráfico Pré 4 se destacar entre tantos projetos independentes inspirados nos FPS clássicos.

A movimentação é um dos grandes acertos

Se existe um elemento que precisa funcionar em um boomer shooter, é a movimentação.

Felizmente, esse é um dos pontos mais fortes do jogo.

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 mantém a velocidade característica dos FPS baseados na tecnologia de Quake e acrescenta duas habilidades importantes: double jump e dash.

Na prática, isso deixa os confrontos ainda mais dinâmicos.

Em vez de simplesmente andar pelo cenário procurando inimigos, o jogador precisa utilizar o espaço disponível para se movimentar, escapar dos ataques e encontrar melhores ângulos para continuar atirando.

O resultado é uma jogabilidade que combina muito bem com a proposta.

A análise publicada pelo Arquivos do Woo também destaca que o dash e o pulo duplo deixam a movimentação mais rápida e dinâmica, enquanto as áreas de combate oferecem bastante espaço para correr e desviar dos inimigos.

E essa velocidade faz diferença.

Mesmo utilizando uma tecnologia criada originalmente para um jogo lançado em 1996, Aviãozinho do Tráfico Pré 4 consegue entregar uma movimentação que continua agradável nos dias atuais.

Combates rápidos e sem muita enrolação

A filosofia do combate é bastante direta: entrar na arena, encontrar os inimigos e começar a disparar.

O jogo não precisa criar sistemas complexos para conseguir divertir.

Os espaços relativamente abertos ajudam bastante nesse processo. Quando vários inimigos aparecem simultaneamente, o jogador precisa aproveitar a mobilidade para não ficar encurralado.

Além disso, o ritmo combina com a proposta de um boomer shooter.

Você não passa longos períodos observando diálogos ou atravessando corredores vazios. Quando o combate começa, a ação assume o controle.

E, considerando a proposta do jogo, essa simplicidade é uma qualidade.

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 entende que o jogador está ali principalmente para atirar, correr, pular e rir das situações absurdas que aparecem pelo caminho.

Um arsenal que só poderia existir em Aviãozinho do Tráfico

Outro destaque é o arsenal.

A série sempre utilizou armas completamente absurdas e, neste capítulo, a ideia continua.

Entre os equipamentos estão versões remodeladas de armas conhecidas dos jogos anteriores, enquanto outras são completamente novas. A análise da Gamerview cita, por exemplo, o retorno de armas como a trinta e dois, as doze douradas e o Berimbau de cocos explosivos.

Entretanto, são as novidades que mais chamam atenção.

O jogador pode utilizar chuveiros paulistas que dão choque, um chimarrão que funciona como lança-chamas e uma feijoada explosiva.

Sim, é exatamente tão absurdo quanto parece.

E essa é uma das melhores características do projeto.

Em um FPS tradicional, o arsenal precisa seguir algum tipo de lógica. Aqui, a lógica é justamente não existir lógica.

O jogo pega elementos reconhecíveis da cultura brasileira e transforma tudo em armas.

O resultado é um arsenal que funciona tanto mecanicamente quanto como ferramenta de humor.

Inimigos transformam referências brasileiras em combate

A mesma abordagem aparece nos inimigos.

Ao longo da campanha, encontramos demônios, criaturas monstruosas, personagens baseados em referências brasileiras e situações que dificilmente poderiam aparecer em um FPS convencional.

Entre os exemplos estão torcedores possuídos, criaturas relacionadas à Série B e outras figuras completamente inesperadas.

Esse aspecto ajuda a manter a surpresa durante a campanha.

Mesmo quando a estrutura do combate permanece familiar, existe sempre a possibilidade de o próximo encontro apresentar alguma referência que faça o jogador parar por alguns segundos para entender o que está acontecendo.

E isso faz parte da diversão.

O visual propositalmente “feio” funciona

Visualmente, Aviãozinho do Tráfico Pré 4 está muito distante dos padrões atuais.

Mas isso não significa que o jogo tenha simplesmente gráficos ruins.

Existe uma diferença importante entre uma produção que possui limitações técnicas e outra que transforma essas limitações em parte de sua identidade.

Aqui, a segunda opção parece ser a intenção.

Texturas simples, modelos estranhos, animações menos fluidas e elementos visuais que parecem ter saído diretamente de uma produção amadora dos anos 2000 fazem parte do estilo.

O Arquivos do Woo destaca justamente essa estética trash, com texturas simples, modelos questionáveis e até o uso proposital de Comic Sans. Ao mesmo tempo, a análise ressalta que a movimentação do jogador permanece fluida, seguindo a tradição da engine de Quake.

E essa diferença é importante.

As limitações visuais não prejudicam a jogabilidade. Pelo contrário, ajudam a criar uma identidade visual coerente com a proposta.

Uma viagem pelo Brasil

A campanha também utiliza os cenários para explorar diferentes referências nacionais.

A aventura passa por locais inspirados no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, além de levar o jogador para ambientes muito mais inesperados, como o Inferno e o Céu.

A descrição oficial confirma essa proposta de levar o jogador por diferentes regiões brasileiras e até mesmo por esses ambientes sobrenaturais.

Isso permite que cada parte da campanha tenha suas próprias referências.

Em determinado momento estamos em um cenário reconhecível do Brasil; pouco depois, o jogo pode simplesmente decidir abandonar qualquer compromisso com a realidade e mandar o jogador para outro lugar completamente absurdo.

É uma estrutura que combina perfeitamente com o humor da série.

Humor que não tenta agradar todo mundo

Talvez este seja o ponto mais importante para entender Aviãozinho do Tráfico Pré 4.

O humor do jogo é extremamente específico.

Ele aposta em memes, referências brasileiras, cultura de internet, exageros e situações propositalmente absurdas.

Não existe preocupação em construir uma experiência universalmente engraçada.

Na verdade, o jogo parece muito mais interessado em reproduzir aquela sensação da internet brasileira dos anos 2000, quando vídeos, mods, mapas e jogos completamente improvisados podiam se transformar em fenômenos dentro de determinados círculos.

A Gamerview também associa o jogo justamente a essa nostalgia da internet brasileira e das antigas lan houses.

Por isso, quem não conhece esse tipo de humor pode simplesmente não encontrar graça em algumas situações.

Por outro lado, para quem reconhece as referências, a experiência pode ser muito mais divertida.

A trilha sonora acompanha a proposta

A música também contribui para essa identidade.

Em vez de apostar em uma trilha épica tradicional, o jogo utiliza remixes e combinações completamente inesperadas.

A proposta sonora acompanha o restante da produção: tudo pode virar uma referência.

Isso inclui músicas brasileiras e misturas que dificilmente fariam sentido em qualquer outro jogo.

Mas aqui funcionam porque fazem parte do mesmo conceito.

Nada precisa ser levado muito a sério.

Uma homenagem aos mods brasileiros

Por trás de toda a loucura existe uma ideia bastante interessante.

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 funciona como uma homenagem aos mods brasileiros dos anos 2000, aos jogos piratas brasileiros daquela época e à música nacional. Essa intenção aparece explicitamente na descrição do jogo no Steam.

E talvez seja justamente por isso que as escolhas aparentemente mais estranhas acabam funcionando.

O jogo não está tentando esconder sua origem.

Ele quer lembrar uma época em que jogadores criavam mapas, modificavam jogos e produziam experiências completamente improvisadas simplesmente porque era divertido fazer aquilo.

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 pega essa mentalidade e transforma em um jogo completo.

O que poderia ser melhor?

Mesmo em uma análise positiva, existem alguns pontos que precisam ser considerados.

O humor extremamente específico pode não funcionar para todos. Além disso, a estética propositalmente rudimentar pode afastar quem procura um FPS visualmente sofisticado.

A própria estrutura do boomer shooter também é bastante direta. Quem espera sistemas modernos, progressão complexa ou uma campanha cinematográfica provavelmente encontrará uma experiência muito diferente.

Entretanto, esses aspectos estão mais relacionados à proposta do que necessariamente a problemas de execução.

O jogo sabe o que pretende entregar.

E, dentro dessa proposta, suas escolhas fazem sentido.

Veredito

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é um dos boomer shooters brasileiros mais particulares que encontramos.

A utilização da id Tech 2 estabelece uma conexão clara com Quake, mas o jogo consegue ir além da simples homenagem ao transformar a cultura brasileira em parte essencial de sua identidade.

A movimentação rápida, o double jump e o dash deixam os combates divertidos. Além disso, o arsenal absurdo, os inimigos inesperados, os cenários brasileiros e o humor completamente sem filtro trabalham juntos para criar uma experiência que dificilmente será confundida com outro FPS.

O mais importante, porém, é que o jogo não tenta ser algo que não é.

Ele não quer disputar com os grandes lançamentos do mercado em gráficos ou realismo. Em vez disso, quer ser um boomer shooter brasileiro, estranho, exagerado e cheio de referências.

E consegue.

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 pode não ser um jogo para todos os públicos. Porém, para quem gosta de FPS clássicos, humor absurdo e da cultura brasileira transformada em uma experiência interativa, existe aqui uma combinação bastante difícil de encontrar em outro lugar.

É caótico, é exagerado e é propositalmente absurdo. E justamente por abraçar completamente essa identidade, Aviãozinho do Tráfico Pré 4 funciona muito bem.

Nota: 8,5/10

Pontos positivos

  • Movimentação rápida e divertida
  • Double jump e dash funcionam muito bem nos combates
  • Arsenal criativo e absurdo
  • Grande quantidade de referências brasileiras
  • Excelente utilização da estética retrô
  • Humor consistente com a proposta
  • Boa identidade própria

Pontos a considerar

  • Humor bastante específico
  • Visual propositalmente rudimentar pode não agradar todos
  • Estrutura simples pode não agradar quem busca um FPS mais moderno

Imagem: Joeveno/Reprodução

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