O mercado indie segue surpreendendo pela capacidade de criar experiências singulares, e A Pizza Delivery, desenvolvido por Eric Osuna e publicado pela Dolores Entertainment, entra exatamente nessa categoria. Longe de ser apenas mais um jogo de “walking simulator”, ele se apresenta como uma jornada introspectiva, surreal e carregada de sensibilidade — tudo isso a partir de uma simples entrega de pizza.
Uma premissa simples que revela muito mais
Em A Pizza Delivery, acompanhamos B, uma entregadora prestes a encerrar seu turno quando é enviada para uma última entrega. O que deveria ser uma tarefa comum rapidamente se transforma em uma travessia por um mundo que funciona como um grande espaço emocional — cheio de memórias, metáforas e personagens que parecem aprisionados em suas próprias histórias.
O jogo não tem pressa em revelar seus mistérios. Ele convida o jogador a caminhar, observar e refletir, oferecendo uma narrativa que se revela aos poucos e que dialoga com temas como saudade, arrependimentos e aceitação.

Atmosfera que envolve do início ao fim
Um dos pontos mais fortes do título é a construção de sua atmosfera. Cenários liminares, iluminação cuidadosamente posicionada, ruas vazias e ambientes que oscilam entre o real e o onírico criam uma sensação constante de estranhamento — mas um estranhamento acolhedor.
A trilha sonora acompanha essa proposta com delicadeza, reforçando a sensação de estar em um sonho melancólico. Há momentos visualmente marcantes, que incluem jogos de luz, espaços amplos e transições inesperadas que fazem o jogador parar apenas para observar.
Apesar disso, alguns trechos apresentam cenários menos inspirados, especialmente áreas urbanas mais simples e enevoadas, que ficam aquém do padrão artístico do restante da experiência. É uma oscilação que não compromete a jornada, mas merece ser citada.

Jogabilidade simples, mas significativa
A entrega da pizza é apenas o ponto de partida. Ao longo do caminho, B encontra personagens peculiares, cada um com suas histórias e dores próprias. Compartilhar fatias de pizza com eles não só aprofunda o diálogo como também funciona como uma metáfora poderosa sobre empatia e conexão humana.
Os puzzles presentes no jogo são leves, fáceis de entender e integram-se bem ao ritmo contemplativo da obra. Entretanto, quem espera desafios complexos pode sentir falta de maior profundidade nas mecânicas.
Há também a navegação entre áreas, que em geral funciona bem, mas pode ser afetada por pequenos problemas como falhas ocasionais na bússola — item importante para se orientar em trechos mais abertos.
Beleza artística com algumas limitações técnicas
Como muitos indies feitos por equipes pequenas (neste caso, por um único desenvolvedor), A Pizza Delivery apresenta alguns deslizes técnicos. Há relatos de controles um pouco rígidos na scooter, pequenos bugs de localização e, em casos mais raros, travamentos inesperados.
Nada disso chega a arruinar a experiência, mas são detalhes que merecem uma atenção futura em atualizações.
No campo visual, enquanto os cenários brilham, o design de alguns personagens não acompanha a mesma expressividade e pode parecer desconectado do estilo mais artístico do mundo ao redor.
Vale a pena?
Com preço acessível e uma proposta que se distancia das fórmulas tradicionais, A Pizza Delivery é uma obra que abraça a introspecção. É o tipo de jogo que conversa diretamente com quem aprecia narrativas emocionais, ambientes contemplativos e experiências curtas, mas marcantes.
Apesar de limitações técnicas e de alguns elementos visuais menos inspirados, o jogo compensa com uma atmosfera diferenciada e uma metáfora simples — compartilhar pizza — que acaba se revelando profunda.
Para quem gosta de jogos que tocam mais pela sensação do que pela ação, A Pizza Delivery é uma escolha certeira.
Imagens: Eric Osuna/Dolores Entertainment/Divulgação


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